quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Jesus salva


Talvez ele fosse a única pessoa a não estranhar o veículo atípico. Também, pudera. Vivia de bicos. Começou modesto, homem placa, "compro e vendo ouro", no Largo da Carioca, Rio de Janeiro. Ficou experiente, vestiu-se de vidro de maionese – deu graças, e pensou que podia ser pior se a roupa-salsicha fosse quatro números maior. No dia dos namorados do ano passado, o uniforme de trabalho era uma camisinha de morango que brilha no escuro, com elevações para proporcionar maior prazer na sua transa. Foi se sentar num muro, caiu e fraturou o cóccix, esqueceu que estava lubrificado. Mas Jesus Christian não desanimava, era um rapaz de visão, tinha foco, um objetivo: ainda faria bico numa festa da alta sociedade. Não pela finesse do evento – nem ligava – mas para usar camisa social e gravata, ainda que borboleta, uma vez na vida. Tá que ele já havia usado, mas preferia esquecer a participação no concurso cover oficial do Netinho. "Festa em barco tem óculos escuros no uniforme e mulheres de biquíni". Jesus Christian recebeu o chamado e foi até o Espírito Santo. A festa no barco era para o lançamento de um par de tênis laranjados para os corredores antenados usarem no verão. Ficou deslumbrado. Nem sabia que rico capixaba nem era lá tão essas coisas, e só de servir (o que ao menos parecia) champagne aos convidados já sentia-se em outro universo. No meio da festa, barco ancorado, convidados (levados nos botes patrocinados por algum novo energético) em uma ilhota, e Jesus Christian sozinho no pé direito. Nada para fazer, sentia-se uma pedra no sapato. Ouviu gritos, fortes exclamativos de dor. Não titubeou. Jesus Christian assumiu o comando do tênis e seguiu até se aproximar do homem cercado de sangue. Resgatou-o. Tinha um nome difícil, e como sentia frio e muita dor – tivera a perna direita decepada – era ainda mais complicado de entender o que dizia. Precisou perguntar três vezes até entender, Lars Grael. Não morreu porque foi salvo por Jesus Christian, que, graças a Deus, e ao tênis laranja-verão, caminhou sobre as águas.


quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Se todos fossem sinceros...

Veja bem, meu amor.
Sei que estamos juntos há seis anos e meio... Tempo feliz!
Mas eu tenho um caso mal resolvido.
Saímos, bebemos e nos divertimos enquanto você viajava, e agora, preciso transar com ele. Espero que seja maduro o suficiente para saber separar as coisas, Alberto.
Entenda, eu amo você! Mas ele me parece ser bom de cama e sempre tivemos uma química incrível (tivemos = a eu e ele, e não a eu e você)!
Não se incomode, não significará nada. É pura curiosidade. E confesso que me anima um pouco a ideia de ir para a cama (e para a banheira, para a varanda, para o sofá, para o corredor, para a garagem...) com alguém que não seja você, meu benzote. Mas, olha, fica tranquilo! Vai ser só uma coisa louca, intensa, cheia de paixão, suor e gozo, como duas doninhas férteis enlouquecidas com os hormônios à flor da pele. Quer dizer... assim espero. E quero. E querer é poder, não amar! E eu amo você! Compreende? É com você que eu reclamo do trabalho e das mazelas da vida. Do seu lado que posso ser eu mesma, arrotar, andar desarrumada e sem maquiagem ou passar uma semana sem banho. É com você, meu escolhido, que faço toda a parte burocrática, burguesa e social da vida. Quanta honra, hein?!
(Aposto que você está sorrindo)
Não há de quê! Juro!, não precisa me agradecer.
Um beijo. E comporte-se.
Volto na segunda-feira.
Martinha

ps: como tive que pagar a depilação completa, a lingerie nova, os acessórios da sex shop e um scarpin de salto agulha, levei seu cartão para pagar a minha metade da conta do motel.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Cinco da tarde e pouco trânsito

Nada diferente...

Começou como começa todo amor,
achando ser maior que todos os outros amores de todo o mundo.

(O amor é tão sublime que chega a ser prepotente)

Acabou como acaba todo amor.

Uma vida que segue, uma alma que sofre.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Meu olhar sobre o livro Ética na Comunicação (de Clóvis de Barros Filho) e o panorama atual

(parte I - primeira metade)

Subjetividade, (pseudo)objetividade, ética, simulacro e simbologia. Os pilares, e também tabus da comunicação, tão interdependentes e, ao mesmo tempo, antagônicos, são a pauta da primeira metade do livro de Clóvis de Barros Filho. A objetividade dissecada ao decorrer do tempo deixa a máscara de coisa natural para resultado temporal e cultural. Antes tida como símbolo-mor de legitimação, nada mais é do que uma adaptação ao meio de comunicação e pensamento coletivo dominantes. A repulsa ao adjetivo e as aspas da fonte, sonoras, fotos e dados conferem a realidade ao real. Isto eliminaria a responsabilidade do repórter não fosse ele quem escolhe a quem recorrer na maioria das vezes. A teoria do espelho era seguida e a visão do repórter talhada. Até o surgimento das revistas. Publicações direcionadas para o mesmo público do impresso, o que gosta de ler, porém produzidas com mais tempo e com ousadia. Era oferecido o além-fato, desdobramentos, fontes alternativas, a busca pelas ramificações dos acontecimentos núcleo. Se ir além permitia ir tão longe, era pouco se fechar no óbvio ocorrido. Não se discute o mais correto, mas o mais viável, prático. A preocupação (não aparente, claro) não é ser ético, é não ser antiético. A pseudo-objetividade continua com a agenda setting. Os fatos noticiados são escolhidos por normas pré-estabelecidas e comuns entre as empresas de comunicação. A violência tão criticada pela grande exposição é tão acompanhada, pelo instinto de sobrevivência, um toque do egoísmo humano e o que Durkeim chamou de solidariedade mecânica. E regras não faltam a profissionais e aspirantes da comunicação. A pirâmide invertida e as seis perguntas são parte do piloto automático do jornalista informativo. Para sair da monotonia em que um número qualquer de linhas noticiosas são respondidas em um lead, jornalismo e literatura precisavam se misturar. Infográficos diversos foram outra saída para prender a leitura. Tudo para que uma memória coletiva seja criada nos padrões estruturados e consonantes entre concorrentes. Fotos e vivos na violenta imposição de mundo objetivo. Simulacro, simulação e real se confundem e o imaginário midiático passa a ser a realidade conjunta. Quando os hábitos são quebrados há estranhamento geral e as críticas são esquecidas, pois o meio inovador destoa de todo o padrão de qualidade. O subjetivo, por sua vez, é sempre criticado, quase exorcizado aparentemente, mas está intríseco em cada pauta, cada escolha, cada palavra publicada. O processo de produção se confunde entre jornal e jornalista, afinal, quem produz? Quem determina a linha editorial ou a semântica?

Meu olhar sobre o livro Ética na Comunicação (de Clóvis de Barros Filho) e o panorama atual

(parte II - metade final)


A relação mídia-público, meios de comunicação de massa e receptor, é de primordial conhecimento das corporações comunicativas. Os resultados das pesquisas, assim como o contexto e modo de viver e pensar geral, foi se modificando com o tempo – sempre levando em conta as maiorias e a subjetividade do indivíduo. Com a abertura de pensamento chegam também os canais fechados; uma pseudo variedade dando vida às nossas telas, e atualmente, a diversidade vertical e a horizontal deixam muito a desejar. Culpa da mídia? Culpa do receptor? Ambos, somados a outros fatores. Por que será que no centro da cultura pop e de consumo (EUA) os realities e programas sobre celebridades dominam a televisão? E por que os programas de auditório e de ajuda (escreva sua carta e ajudaremos você) prendem grande público brasileiro? Questões culturais, comportamentais, históricas e psicológicas podem esclarecer as questões. Teorias da comunicação de massa classificam fatores. A agulha hipodérmica, por exemplo, trabalha com o princípio do behaviorismo, estímulo e resposta, e a exemplo do cãozinho do experimento de Pavlov, a recepção televisiva passa a se dar pela inércia, às vezes. Para lidar com tantas pesquisas e descobertas sem perder a audiência, surgem os tratados de ética. Sem muita lógica, uma vez que não é ético noticiar suicídio, mas foi ética a atenção e os 15 dias de fama que toda a imprensa brasileira deu ao sequestrador de Eloá, em Santo André (SP). Ainda na uniformização, manuais de jornalismo; não basta ser bom, tem que seguir as regras do jogo, como nomeou Claudio Abramo e os estudiosos da recepção lúdica, é tudo um jogo. A mandante, a exposição seletiva, que resulta em mais vertentes de fatores psicológicos: dissonância cognitiva, utilidade da informação (só mães e jornalistas leem colunas sobre amamentação e cuidados infantis), envolvimento, expectativa e atenção. A imagem exerce grande influência em toda esta gama de fatores. Uma imagem que cause choque pode apagar da memória tudo que foi dito antes dela, e impregnar o que a segue. O exemplo mais clássico e mundial é o atentado de 11 de setembro, e isto ajuda a comprovar a supremacia da televisão. Isso também acontece contrato de comunicação mídia-público, o que quer ser visto. Ou seria o Big Brother, as novelas e afins (além de entretenimento, ainda que de valores questionáveis) algo mais do que vitrines da vontade geral? Entra em cena outra teoria dos MCM, o agenda setting, que trabalha basicamente com o meio comunicacional escolhendo o que é e o que não é notícia e a disposição dos fatos escolhidos pelo jornal, devido a ordem de importância determinada, também, pela empresa de comunicação. Assim, a mídia forma ou cala opiniões, segundo a teoria da Espiral do Silêncio. Os indivíduos com pensamentos discrepantes aos da maioria se calam, ficam presos neste ciclo (espiral) e forma-se a opinião pública, mostrando a concordante e reprimindo a que discorda. Ou, na fase inicial de investigações, ainda sem evidências, alguém se manisfestou a favor do casal Nardoni enquanto os canais os pré-julgavam assassinos?

sábado, 26 de setembro de 2009

Constatação

Andar no ônibus Metrô Rio é como um filme de Stanley Kubrick.
Alguns podem ser lerdos e cansativos, mas você precisa ir até o fim. Outros são tão legais que você repete a dose. E, na grande maioria das vezes, a música clássica embala toda a viagem, enquanto o caos desenfreado passa, do outro lado, pelos olhos do espectador.